No dia 2 de janeiro de 1898 nasce em Enviny, região
montanhosa da Espanha, Manuel Barbal Cosán, filho de Antônio Juanmartí e
Maria Cosán Nus.
Nasceu em uma família numerosa, precedido por Agostinha,
Josefa, Teresa, José Antônio, sendo seguido por Maria. Sua família era
marcada pelo zelo religioso.
Desde cedo o pequeno Manuel colaborou nas tarefas do campo, o
que lhe proporcionou contato com a natureza e com as pessoas simples,
desenvolvendo em si os princípios cristãos, profundas convicções,
autenticidade e senso de realismo. Contudo, eram também seus momentos de lazer
com os outros garotos de sua idade, nas corridas pelas vielas de Enviny, que lhe
proporcionavam o contato com as pessoas... Manuel crescia robusto e feliz.
Possuía de uma profunda admiração e amor pelos pais,
evidenciando isso no trato e mesmo em suas cartas. Eis pequenos trechos de referências
aos pais: "Meu pai é um cristão exemplar e modelo de cidadão...",
"Minha mãe era uma santa,... Era carinhosa, doce e sofrida sem limites.
Fonte de ternura que não seca nunca". Outro dado revelador de seu amor por
sua família é a forma como inicia suas cartas, sempre saudando o destinatário
com o adjetivo "amado".
Chega o momento em que já não pode mais gastar seu tempo
nos prazerosos momentos de lazer ou no trabalho com o pai. Chega o momento de
crescer também em entendimento.
Em janeiro de 1908, aos 10 anos, Manuel ingressou na escola
dos padres Vicentinos, em Rialb. Ali conheceu o Pe. Masferrer, que
posteriormente se tornou seu orientador espiritual. De forma equilibrada o
pequeno Manuel assimila rapidamente os conteúdos propostos.
Com 11 anos, na festa de Pentecostes, recebeu pela primeira
vez a Eucaristia, na Igreja de São Pedro de Llessui. Esse momento de intimidade
com o Senhor aumenta nesse garoto o desejo de segui-lo mais de perto, numa doação
integral de si à construção do Reino.
Em outubro de 1910, com 12 anos, Manuel ingressa no Seminário
"Seu d’Urgell", aspirava ao Sacerdócio. Segue com gosto e sem
dificuldades os estudos e sua formação pessoal.
No dia 28 de junho de 1911 morre sua mãe, María Cosán Nus.
Vivera apenas 34 anos. A família sofre com a perda, contudo a fé existente
naquela família ajuda-os a superar a dor.
Manuel prossegue sua formação no seminário. Mas, aos 16
anos, percebe os sintomas de deficiência auditiva, que logo se mostra
ascendente e incurável. Isso foi decisivo para encerrar sua brilhante carreira
no seminário. Contudo, não abandonou a idéia de se consagrar a Deus. Busca a
melhor maneira para fazê-lo.
Nesse momento de incerteza e dúvidas pedia ao Senhor que o
ajudasse para que pudesse ser fiel ao chamado que recebeu. A ação da Providência
não falha, em especial com aqueles que esperam nela...
Conhece então os Irmãos Lassalistas. Mantém contato com
eles durante algum tempo. Até que em 1917, aos 19 anos, ingressa no Noviciado
de Irún. Sendo que, antes disso, deteve-se durante alguns meses com o estudo do
Francês.
No dia 24 de fevereiro de 1917, com mais três companheiros,
vestiu o hábito religioso, recebendo o nome de Irmão Jaime Hilário. Entre os
companheiros se destacava devido a sua cultura e simplicidade nos
relacionamentos interpessoais.
Em março de 1918, após o noviciado, recebeu como primeiro
ministério a tarefa de professor e catequista no Colégio São José, em
Mollerussa. Em 25 de julho de 1919 emitiu os votos temporários, permanecendo
durante cinco anos e quatro meses em Mollerussa, onde desenvolveu com êxito sua
missão educativa.
Foi zeloso com seu ministério e suas exigências. Contudo não
descuidou da chama do amor que sentia por Deus. Sua vida espiritual era de muita
intensidade, possuía especial devoção por Santa Teresinha do Menino Jesus.
Outra característica sua é o amor pelo Instituto. Eis um de seus brilhantes
pensamentos, que se aproxima das idéias do Fundador: "O Senhor não me
mostrou as dificuldades que encontraria tornando-me um Irmão Lassalista, pois
eu me intimidaria. Mas agora não venderia minha sotaina nem que me dessem todo
ouro do mundo. Não trocaria o meu estilo de vida nem por todo povoado de
Enviny...". Não desprezava nunca a sua identidade de religioso, ao contrário,
orgulhava-se dela.
Durante um ano, agosto de 1923 a agosto de 1924, foi
transferido para o Colégio de Nossa Senhora de Montserrat, lá prosseguiu com
suas atividades educativas, seguindo, apenas um ano depois, para Mollerussa,
onde prosseguiu com a mesma atividade de professor e catequista.
A memória viva do que era o povoado de Enviny era percebida
em sua cartas. Não perdeu sua cultura, nem suas raízes campesinas. Trazia
consigo a doce lembrança de sua infância, que fora tão bem vivida naquele
lugar acolhedor. Pode-se mesmo dizer que toda Enviny era um lar, uma comunidade
fraterna.
E cada vez mais se reduzia sua capacidade auditiva. Não
tinha mais condições de atender a seus alunos como desejada.
O Irmão Jaime foi transferido pra Oliana, em julho de 1925.
Durante as férias realizou o retiro de 30 dias, preparatório para a Profissão
Perpétua, em Mauleón, França.
Uma nova transferência deu-se em setembro de 1926, para
Pibrac, França, onde permaneceu cerca de oito anos. Com 28 anos, em Pibrac,
emitiu sua Profissão Perpétua.
Ali exerceu diferentes tarefas apostólicas. A princípio foi
professor no Noviciado, depois uma das atividades mais difíceis, a de cuidar do
jardim e da horta. Mesmo sendo de origem campesina, teve maior habilidade no
trato simples e terno com os corações juvenis do que com as ferramentas agrárias.
Mas, com tanto esforço, isso não foi problema, aos poucos foi pegando prática.
De volta à Espanha, em 1934, ficou em Calaf. Lá também
ficou encarregado dos trabalhos manuais da Comunidade do Colégio Menino Jesus.
Aos 36 anos, devido ao agravamento de sua deficiência, só lhe era permitido
realizar trabalhos manuais. Contudo, esforçou-se para contribuir com seus
artigos e mensagens para publicações de caráter religioso. Não era um gênio
na literatura, mas possuía uma certa inclinação para a escrita.
Sua última comunidade foi a de "São José’ em
Cambrils, onde ficou de dezembro de 1934 a julho de 1936.
Em julho de 1936, quando viajava para encontrar sua família,
foi preso. A princípio o levaram para o cárcere em Mollerussa. Mas no primeiro
dia de agosto, juntamente com o Irmão Arnoldo, passou a residir com a família
do Sr. Tomás Badía Vilá, ex-aluno lassalista, a pedido do mesmo. Era uma espécie
de liberdade condicional. Foi um ato de coragem da parte do Sr. Tomás, pois
receber os religiosos em sua casa significava risco de vida para si e para sua
família.
No dia 24 de agosto, os dois Irmãos foram conduzidos ao Palácio
de Justiça de Lleida, transformado em cárcere. Permaneceram encarcerados em um
ambiente sub-humano. Em seguida, Irmão Jaime foi transferido para outro cárcere
em Lleida, onde ocupou a cela de número 31. Durante todo esse período de
transtornos e barbárie demonstrou serenidade, proferia palavras de conforto
para os outros prisioneiros e de perdão para os responsáveis por sua prisão.
Novamente foi transferido. Dessa vez voltava para a jurisdição
de Tarragona. Era 5 de dezembro de 1936. Residiu em um barco, feito cárcere,
chamado "Mahón", aí encontrou outros coirmãos.
O seu processo de julgamento já estava encaminhado. Como
advogado de defesa havia-se oferecido o Sr. Montanés Miralles. A princípio
houve dificuldades no entendimento entre cliente e advogado, pois este último
pediu que o Irmão negasse seu estado religioso, ao que o Irmão Jaime se
recusou terminantemente, pois carregava consigo um profundo amor por seu estado
de vida. Foi uma decisão consciente. Por fim, no dia 15 de janeiro de 1937 foi
levado ao seminário de Tarragona. Apesar dos esforços do advogado, condenaram
o jovem religioso lassalista.
E qual a reação do nosso jovem lassalista?
"Bendito seja Deus; no céu rezarei por todos. Que mais
poderia desejar que morrer pelo único delito de ser religioso e de haver
contribuído para a formação cristã das crianças?"
Sua serenidade assustava a todos!
Antes de ser conduzido para o Monte das Oliveiras, local onde
se deu o Martírio, passou suas últimas horas de vida em um lugar que recebe um
outro nome bem sugestivo: "Cárcere de Pilatos". Até geograficamente
existe uma sutil semelhança com o caminho percorrido por Cristo.
Estava convicto de que não deveria temer aos que matam o
corpo: "Derramarei meu sangue por Deus, pela pátria e meu Instituto".
Para muitos foi edificante presenciar os momentos finais daquele encarcerado.
O Sr. Montañés, ainda tentou obter a liberdade para um
grupo de pessoas, entre elas o Irmão Hilário, junto ao Conselho de Justiça da
Catalunha. Oficialmente a liberdade foi garantida. Contudo o Presidente do
Tribunal que havia julgado o Irmão resolveu apressar a execução, de forma que
se fizesse valer a sua autoridade.
Houve testemunhas do martírio. Além dos executadores e
milicianos se encontrava junto o Dr.Miguel Aleu Padreny que havia sido convocado
como testemunha.
Dia 18 de janeiro, Monte das Oliveiras, de pé, com mãos
postas e dedos entrelaçados sobre o peito, se encontrava a vítima. Em atitude
de oração, contemplava o céu. A ordem é dada. Ouve-se a primeira rajada.
Contud, o Irmão Jaime permaneceu na mesma posição. Acontece a segunda ordem.
Lá está nosso Irmão estático. Ao perceber que nada havia acontecido com o
religioso, muitos fugiram assustados. Cheio de ódio, o chefe do pelotão
aproximou-se e disparou toda a sua munição. A vítima só caiu depois da
terceira tentativa.
Com 39 anos morre Irmão Jaime Hilário. Morre sereno,
confiante, testemunhando a sua fé.
A morte do Irmão Jaime Hilário provoca peregrinações,
intercessões daqueles que crêem na validade de seu martírio. Mas, é preciso
prudência!
Em 1945, em Tarragona, se forma um Tribunal Eclesiástico
para fazer as devidas pesquisas acerca de sua morte e dos milagres atribuídos a
sua intercessão junto ao Pai. Há empenho de todos, seus coirmãos, dos Bispos
das regiões vizinhas e em especial dos fiéis que não param de pedir sua
intercessão e tê-lo como exemplo. Mas, o caminho aos altares parece ser mais
difícil do que aos corações dos fiéis... Foi beatificado em 29 de abril de
1990, por João Paulo II. Sua memória é celebrada no dia 18 de janeiro. Foi
canonizado pelo mesmo papa João Paulo II em 1999.
LASALLIANA, número especial de 1992, La Santidad signo de
vida. Roma 1992.
OLLER, JORDI., Hermano Jaime Hilario testemunha de fé,
Romargraf, S.A., Espanha.
Mª SEGU, JOSEP., Balas Reverentes, Romargraf, S.A.,
Espanha 1990.